O trabalho humano (parte 3)

No primeiro momento, refletimos sobre o sentido do trabalhohttps://campusfidei.org.br/blog/formacao-humana/otrabalhohumano/. No segundo, sobre a alegria escondida até nas tarefas mais duras (https://campusfidei.org.br/blog/formacao-humana/trabalho-humano-religiao/). Agora, encerro essa pequena trilogia com uma parábola. 

***

Certa noite, nos bastidores do teatro, agitava-se a companhia inteira. Figurinos sendo ajustados, falas sendo repetidas, instrumentos sendo afinados. O protagonista da peça é o palhaço, que chama a atenção de todos, dizendo que devem se esforçar mais.

De início, aponta para o contra-regra, dizendo que ele se esconde demais e não ajuda como deveria: “Você é invisível, às vezes até esquecemos que você está aqui.”

O contra-regra, indignado, devolve: “Invisível sou eu? E o faxineiro, que só se preocupa com baldes, vassouras e panos, sem entender nada do que realmente importa para o espetáculo?”

O faxineiro replica dizendo que ao menos revela a verdadeira beleza das coisas, e ataca as maquiadoras: “Vocês é que escondem a verdade estampada no rosto dos atores, criando uma máscara artificial demais.”

As maquiadoras alegam que quem cria máscaras é a plateia: “São exigentes, impacientes, criticam até um fio de cabelo solto.”

O ambiente fica pesado, os ruídos crescem, as vozes se atropelam.


Nesse momento chega o diretor.

Ele não levanta a voz. Respira fundo. E todos silenciam. Com poucas palavras, firmes e serenas, indica a posição que cada um deve ocupar, o momento de entrar, o gesto, o compasso, o sentido. Nada de grandioso, mas tudo preciso.

Os faxineiros preparam o palco, as maquiadoras retomam seus pincéis, os atores se concentram no papel, os contra-regras entram no momento exato e se fazem passar despercebidos, como era necessário, os músicos tocam com a alma.

O espetáculo fica impecável. E o público aplaude — longamente.

***

É claro, na vida, nem tudo está sob o nosso controle. A peça nem sempre segue o roteiro que imaginamos. Mas também não podemos cair no vitimismo: cada pessoa é a personagem principal da própria vida, mesmo quando seu papel parece pequeno.

Sabemos que Deus trabalha (Jo 5, 17) e nos chama a trabalhar com ele, a participar de Sua própria obra, de modo que podemos dizer — com humildade, mas também com magnanimidade — aquilo que o Papa Francisco resumiu tão bem: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo”.

Por isso, a exortação agora é direta: abracemos o papel que Deus nos confiou neste grande teatro que é a vida. Sem invejar o papel alheio. Sem desprezar o próprio. E sem achar que precisamos de outro papel para que a história faça sentido.

O espetáculo é maior que nós — mas sem nós, ele não seria o mesmo. E, quando cada um ocupa seu lugar diante do Diretor, a vida se enche de sentido, mesmo quando ninguém vê.

Texto escrito por Pedro Pagano, missionário da Rede de Missão Campus Fidei.

0 0 votos
O que você achou?
Assinar
Notifição de
0 Comentários
Mais antigo
Mais recentes Mais Votada
Feedbacks online
Ver todos os comentários
Este site utiliza cookies para lhe oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar neste site, você concorda com o uso de cookies.
0
Deixe seu comentário no post!x