
No primeiro momento, refletimos sobre o sentido do trabalhohttps://campusfidei.org.br/blog/formacao-humana/otrabalhohumano/. No segundo, sobre a alegria escondida até nas tarefas mais duras (https://campusfidei.org.br/blog/formacao-humana/trabalho-humano-religiao/). Agora, encerro essa pequena trilogia com uma parábola.
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Certa noite, nos bastidores do teatro, agitava-se a companhia inteira. Figurinos sendo ajustados, falas sendo repetidas, instrumentos sendo afinados. O protagonista da peça é o palhaço, que chama a atenção de todos, dizendo que devem se esforçar mais.
De início, aponta para o contra-regra, dizendo que ele se esconde demais e não ajuda como deveria: “Você é invisível, às vezes até esquecemos que você está aqui.”
O contra-regra, indignado, devolve: “Invisível sou eu? E o faxineiro, que só se preocupa com baldes, vassouras e panos, sem entender nada do que realmente importa para o espetáculo?”
O faxineiro replica dizendo que ao menos revela a verdadeira beleza das coisas, e ataca as maquiadoras: “Vocês é que escondem a verdade estampada no rosto dos atores, criando uma máscara artificial demais.”
As maquiadoras alegam que quem cria máscaras é a plateia: “São exigentes, impacientes, criticam até um fio de cabelo solto.”
O ambiente fica pesado, os ruídos crescem, as vozes se atropelam.
Nesse momento chega o diretor.
Ele não levanta a voz. Respira fundo. E todos silenciam. Com poucas palavras, firmes e serenas, indica a posição que cada um deve ocupar, o momento de entrar, o gesto, o compasso, o sentido. Nada de grandioso, mas tudo preciso.
Os faxineiros preparam o palco, as maquiadoras retomam seus pincéis, os atores se concentram no papel, os contra-regras entram no momento exato e se fazem passar despercebidos, como era necessário, os músicos tocam com a alma.
O espetáculo fica impecável. E o público aplaude — longamente.
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É claro, na vida, nem tudo está sob o nosso controle. A peça nem sempre segue o roteiro que imaginamos. Mas também não podemos cair no vitimismo: cada pessoa é a personagem principal da própria vida, mesmo quando seu papel parece pequeno.
Sabemos que Deus trabalha (Jo 5, 17) e nos chama a trabalhar com ele, a participar de Sua própria obra, de modo que podemos dizer — com humildade, mas também com magnanimidade — aquilo que o Papa Francisco resumiu tão bem: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo”.
Por isso, a exortação agora é direta: abracemos o papel que Deus nos confiou neste grande teatro que é a vida. Sem invejar o papel alheio. Sem desprezar o próprio. E sem achar que precisamos de outro papel para que a história faça sentido.
O espetáculo é maior que nós — mas sem nós, ele não seria o mesmo. E, quando cada um ocupa seu lugar diante do Diretor, a vida se enche de sentido, mesmo quando ninguém vê.
Texto escrito por Pedro Pagano, missionário da Rede de Missão Campus Fidei.
