
Na mesma grande casa onde partilhamos a vida e a fé, naquela manhã alguém chegou mais cedo, abriu as janelas, como quem primeiro deixa a luz entrar para depois sentar-se à mesa. Sobre ela, a Bíblia, o Catecismo e um caderno de capa simples, já com algumas páginas tomadas por anotações e flechas conectando ideias. Tudo está em cima dessa grande mesa, essa espécie de altar.
A Vida Intelectual, para alguns, pode parecer coisa de quem quer ter razão. Mas é mais um dos princípios da Rede de Missão: Conhecer. E é considerado um farol da nossa fé, afinal, “ninguém ama aquilo que não conhece”. E, se queremos amar a Deus, devemos conhecê-lo bem.
Mas não seria presunçoso afirmar que podemos conhecer a Deus, conhecer a verdade? Pode até parecer. Mas na realidade, desistir da verdade não resolve nada, e esconde uma falsa humildade, uma preguiça intelectual. Buscar conhecer a verdade é um gesto de amor!
Os olhos se acendem quando descobrimos, por exemplo, que o Catecismo é como uma bússola para a nossa fé, escrita por várias e várias mãos, mas uma só inspiração (unidade essa que constantemente me surpreende). E então tudo muda. Não estudamos apenas para ensinar; estudamos para entender, para ser. Como quem volta à raiz. Como quem lê Santo Agostinho com seriedade, mas confessa que ainda não entendeu nada — e tudo bem, é realmente difícil de entender.
É bonito ver quando um jovem arregala os olhos em um grupo de partilha, como quem pensa “Eureka! Era isso que eu — não só queria — precisava entender!”. Essa mesma pessoa passa a anotar até a frase perdida no quadro, mas depois do intervalo perde a própria caneta e passa a usar o marca-texto, sublinhando tanto o livro que, se cair na água, certamente irá boiar na poça amarela a se espalhar.
Precisamos justamente de um desejo de aprofundamento. Quem persevera na Vida Intelectual está tentando ser fiel ao chamado de ser e formar, como quem semeia sem ver a colheita, mas sabendo que ela virá, ainda que seja necessário reler o mesmo parágrafo dez vezes — e sempre perdendo a página em que estava.
Pessoalmente, passo por altos e baixos na leitura. Há épocas em que leio muito, em outras, nem tanto. Para ler mais à noite, quando tudo está escuro, recorro ao Kindle, e com ele percebo que entender as histórias é muito mais importante do que ter os livros físicos. É claro que gosto do cheiro das folhas novas e de sentir nos dedos os detalhes da capa de uma edição especial, mas a necessidade de informação (e até entretenimento) que uma leitura proporciona é muito superior à necessidade de posse. Relembre que uma biblioteca imensa de nada adianta se não for lida. E livros lidos sem serem refletidos, meditados, também não adiantam muita coisa.
Estou complicando demais a coisa? É que a Vida Intelectual não se mede por quantidade de anotações, tamanho da biblioteca ou diplomas, afinal, um livro a mais ou a menos na estante não faz muita diferença. E, se o livro cair no chão, não tem problema. Só não deixe cair da mesa aquilo que Deus te deu para guardar: a Palavra que salva. A diferença está não apenas em ler, mas em se alimentar! Aprendemos na catequese que a nossa religião não é a religião do livro, mas da Palavra de Deus, viva, eficaz (CIC 108; Hb 4, 12).
É por isso que precisamos nos deixar constranger, refletir, não ser mais a mesma pessoa depois de finalizada a leitura. Por isso insisto que esse estudo começa no desejo: de compreender o mistério, de não desperdiçar a graça que passa, de ruminar lentamente a Palavra como quem saboreia pão quente e amanteigado após um longo jejum. É esforço, sim, mas também guarda uma alegria!
No fim das contas, estudar a fé é um modo de dizer a Deus: “Eu me importo e quero aprender”. E se ainda não tenho esse desejo arraigado no coração, ao menos quero querer! Ou seja, se ainda não desejo conhecê-lo profundamente, quero desejar. Quero ler com a sede de um maratonista em fim de prova, sede de efetivamente entender o que estou lendo. Não apenas para cumprir um objetivo ou checklist, mas para me alimentar dessa Palavra. É também um modo de dizer aos irmãos: “Eu quero ser mais útil”. Por isso, toda formação, todo encontro, todo estudo comunitário é como um novo tijolo nesse grande campo que somos chamados a construir (Cf. 1 Cor 3, 9-17).
Não raro, o saber se mistura ao silêncio. Porque quem aprende com profundidade sabe ouvir na hora certa. E, às vezes, a formação mais impactante vem de uma pergunta sincera, ou de um “não sei” dito com humildade. O que não podemos é parar, mesmo que usemos latim nas anotações, e depois precisemos perguntar se escrevemos certo e como era a pronúncia. “O espírito é como a aeronave que só pode permanecer nas alturas avançando com toda a potência de suas hélices. Parar é cair.” (Sertillanges, A Vida Intelectual).
Uma dica prática para adquirir o hábito da leitura é criar um cronograma. Comece lendo de modo lento e concentrado (ao contrário do que muitos gurus pregam em cursos de leitura dinâmica). Para isso, pode ser preciso desligar tudo o que distrai — celular, computador, Netflix — por dez minutos, todos os dias, por uma semana. Na semana seguinte, aumente para vinte minutos, depois trinta. Ninguém vai desmaiar por isso, mas você precisará lembrar o seu objetivo: adquirir um hábito que melhora a sua vida espiritual.
Se desde o Antigo Testamento o povo se perdia por falta de conhecimento (Os 4,6), não podemos nos permitir cair no mesmo buraco. Precisamos treinar os ouvidos para ouvir. Escutar a Deus por meio dos Evangelhos, das cartas dos apóstolos, dos santos, dos mártires, dos papas, dos pobres, dos mestres e até mesmo (por que não?) dos protestantes — como, por exemplo, C.S. Lewis. Mas, acima de tudo, devemos abrir nossos ouvidos (Efatá!) para escutar o próprio Cristo, que é Verbo — Palavra que se fez carne.
Há uma mesa posta diante de nós. Nela, o Senhor serve sua Palavra como alimento (Jm 15, 16; Mt 4, 4), sabedoria antiga como vinho novo, doutrina como pão repartido. Não deixemos nada cair da mesa. E esse pedido do nosso fundador não é apenas sobre zelo, é sobre gratidão. Porque o que nos é dado a cada formação, leitura, áudio (ou podcast), não é pouco. E não vale a pena, vale a vida. É um dom.
Para tanto, precisamos anotar, revisitar, mastigar de novo, meditar à noite aquilo que ouvimos à tarde. E perceber que cada palavra dita em uma formação pode ser uma resposta à oração feita em silêncio dias antes. Guardar a homilia, a frase sussurrada no intervalo, o versículo que saltou da página como se tivesse sido escrito só para nós. Não deixar nada cair da mesa é reconhecer que Deus fala — e que seria desperdício demais fingir que não ouvimos.
No céu, creio, saberemos tudo. Mas aqui, enquanto o Reino ainda se anuncia, que haja livros, cadernos e ouvidos abertos, olhos atentos e corações humildes. E enquanto a tarde cai mais uma vez sobre Brasília e cada um volta para sua casa, algo permanece. A Palavra fica. Ela sobe conosco a tesourinha, a quadra, o bloco. Ela não caiu da mesa — entrou profundamente no nosso coração.
Texto escrito por Pedro Pagano, missionário da Rede de Missão Campus Fidei.
