Ma(E)ternidade

Minhas filhas, embora muito novas, têm uma perspicácia que torna uma simples conversa na cama, minutos antes de dormir, uma tarefa desafiadora para os seus pais. Foi nesse momento, minutos antes de dormir, que encontro a Maria Luna chorando, copiosamente. Lutando contra toda impaciência automática que começou a brotar em mim, perguntei o motivo que a levara ao pranto, ao que ela respondeu: 

— Estou com saudade do Estêvão bebê, quero que ele seja bebê de novo!

Suas palavras me atravessaram com uma faca de dois gumes. Senti um contentamento em perceber o carinho da irmã mais velha pelo irmão mais novo. Seu amor e afeição. Mas sua consciência da efemeridade das coisas, em especial das coisas que realmente importam, fez meu peito apertar e meu interior estremecer.

Precisei, então, refletir sobre a relação entre a maternidade e eternidade numa fração de segundos. Sentimentos muito profundos foram lançados à mesa, as palavras de consolo precisavam ser igualmente profundas. 

Saudade: palavra que aperta, dor invisível, frustração ao tentar acessar algo que não existe mais. Incomoda tanto porque em algum momento foi tão bom que o nosso corpo não se acostuma com ideia de viver sem. É a ausência presente e o presente ausente. Eu sentia a dor da minha filha, ou melhor, minha filha sentia a minha dor. 

Como é possível que contentamento e dor andem juntos num sentimento como a saudade? Como explicar isso para uma criança? Como explicar para ela que esse é o exato sentimento que tenho ao olhar para ela e seus irmãos? 

É hora de dormir, estou cansada, provavelmente impaciente, mas, quando as crianças finalmente adormecem, cada pequena extraordinária experiência que tivemos ao longo do dia se perde no passado. Se torna lembrança. Se torna saudade.

Um novo dia amanhece, eu permaneço a mesma. Mas três crianças despertam ligeiramente maiores, ligeiramente mais espertas, mais independentes, com palavras perfeitamente pronunciadas. As roupas são elas que escolhem. A comida? Pode deixar que ele come sozinho. Três crianças desmamadas, três crianças sem chupeta, dois desfraldes de sucesso e um prestes a começar. A mais velha já está lendo, a do meio adora contar histórias e o pequeno corre mais rápido do que as duas mais velhas. Crianças que dormem a noite toda. Crianças que a cada dia se tornam aquilo que são chamadas a ser. Que bom! Cada dia está mais fácil e mais prático ser mãe. Que bom, eles não precisam mais de mim para dormir. Que bom, meu momento!

O barulho da rotina prática quase me faz esquecer do que realmente importa, mas o silêncio do final do dia vem me lembrar das ausências iminentes.

De repente, percebo que sinto falta de sermos um só corpo habitando o mesmo espaço, sinto falta da troca de olhares enquanto amamento, sinto falta daquele cheirinho que só um bebê consegue dar ao ambiente. sinto falta de como o tempo passava vagarosamente num mundo em que, aparentemente, só existia a nossa família. Sinto falta de ser tudo o que um dia eles precisaram. Sinto falta de conseguir segurá-los em um único braço. Sinto falta das descobertas. Sinto falta de apoiar os primeiros passos. Sinto falta de cada segundo que passa, porque sei que o tempo está voando e que tenho vivido os melhores anos da minha vida sendo esposa e mãe.

Ah, filha… eu também sinto saudade. E foi assim que encontrei as palavras a serem ditas.

A Saudade é o desejo pulsante pela eternidade, porque, no fundo, o que desejamos é que algumas experiências durem para sempre. Não sentimos saudade de qualquer coisa. Reflitam: sentimos saudades daquilo que revela, de modo efêmero, a comunhão de amor eterna à qual somos chamados. A pessoa, como nos ensinou Karol Wojtyla, criada por Deus, sente em sua corporeidade e em sua alma o anseio por se unir eternamente a Deus, que é amor. 

O anseio do nosso coração por algo que o sacie é grandioso, eterno, infinito. Existe no homem um vazio do tamanho de Deus (Dostoiéviski). Sentimos saudades de tudo que, neste mundo, nos revela a beleza, a bondade e a verdade do nosso Deus Criador. Sinceramente, esqueçamos por um momento o terrible two. Quer melhor imagem e semelhança de Deus do que nossos filhos? Talvez por isso o Senhor tenha iniciado o seu plano de redenção ainda bebezinho, no ventre da Virgem Santíssima. 

Então disse:

– Filha a saudade na verdade é querer que tudo que é bom dure para sempre, mas tudo que é bom, neste mundo, passa. Novas coisas boas virão e também passarão! Mas cada bom acontecimento, cada boa lembrança, cada alegria vivida servem para nos lembrar de que um dia viveremos uma alegria que não terá fim. Porque no céu teremos tudo o que desejamos em Deus. Foi muito bom o tempo com o Estêvão bebê, e esse tempo não voltará mais. Mas ao chegarmos no céu isso não importará, porque a nossa alegria e o amor que sentiremos serão tão grandes que não haverá mais espaço para saudade.

Somente a maternidade pôde me dar essa visão da eternidade. Só a maternidade foi capaz de abrir o meu olhar diante da angústia provocada pela saudade. A maternidade faz com que urgentemente busquemos superar nossas limitações humanas em virtude de algo muito maior. A mãe que abre mão da sua liberdade, e livremente escolhe dar tudo de si a outro ser, está aprendendo a morrer para si e, pela graça de Deus,  a ser um dom para que outros tenham a vida. Morrer para si, que grande loucura! Loucura para aqueles que ainda não descobriram o  porquê de estarmos aqui, para aqueles que ainda não encontraram O sentido. Quanto a mim, Senhor, aonde mais irei? O que mais poderei fazer, se esse é o caminho pelo qual sou chamada ao eterno ao amor? 

Um bom católico sabe bem a que vocação é chamado.  A maternidade é uma voz interior que nos incomoda e nos faz olhar para eternidade.  A vocação à maternidade é Deus constantemente nos chamando a viver as grandezas dos pequenos acontecimentos dos nossos filhos. Deus fala com voz de amor a cada uma de nós, esta voz ecoa no nosso cotidiano materno e, se tivermos atenção, saberemos como imitar a Cristo; como seguir a Ele, que é o Caminho; como aprender e ensinar que Ele é a Verdade e como viver como Ele viveu. A voz de Deus está a nos chamar, nEle temos vida em abundância. NEle estaremos saciados do amor e da alegria que tentamos, a todo custo, tornar eternos nesse mundo feito de passagem.

Deus deixa em toda sua obra marcas do seu amor por nós, lampejos da união que deseja viver conosco na eternidade. Eu e meus filhos somos Sua obra e a relação que existe entre nós é verdadeiro luzeiro que abriga as chamas do sacratíssimo coração de Cristo. O amor de Cristo arde em meu coração pelos meus filhos. Nós, mães, vivemos a máxima que é amar a Cristo no outro. Ao mesmo tempo experimento filiação e maternidade. Assim, reconheço-me enquanto imagem e semelhança de Deus. Deus que é Pai, Filho e Amor. Um amor tão forte ultrapassa os limites da existência terrena. É muito grande para que essa realidade o comporte. Nossa visão terrena limitada não permite que se explique a grandeza escondida na Maternidade. Precisamos de olhares eternos. 

Olhares eternos…

É… meus filhos já não precisam de mim para dormir, mas nos últimos meses eu escolhi ser presença. Deito-me com um por um e, por um breve momento, relembro-os, individualmente, do quanto são amados, do quanto sou feliz em ser mãe de cada um. Se o amor que tenho por cada um deles já é imenso, maior ainda é o amor de Deus que nos espera na eternidade. Conversamos. Rezamos. Eles dormem.

Eu ainda desejo parar o tempo. Ainda dói precisar sair para trabalhar e deixá-los. Eu ainda queria ter a possibilidade de acessar e reviver “o simples cotidiano dos meus melhores dias”. Eles dormem, eu sonho. Ou melhor, Espero. Clamo a graça do Santo Espírito e me glorio até mesmo das tribulações que  advêm da Maternidade. Ser mãe enraizou em meu coração “que a  tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” (Rom 5, 3-5)

A esperança não engana. O amor que vivemos hoje viveremos um dia no céu. Eu respiro, lembro que para amar só tenho hoje. Menos um dia sendo dom, menos um dia para eternidade. Eu me alegro na esperança, porque, diante de todas as alegrias que passam, esta alegria não me decepcionará. Esta alegria não passará. Menos um dia para fazer de tudo para que estejamos todos lá.

“Fazei frutificar em nós, Senhor, a participação nos vossos mistérios; eles nos levem a amar desde agora os bens do céu e, caminhando entre as coisas que passam, abraçar as que não passam” (Missal romano).

Texto escrito por Laíse Abreu, missionária da Rede de Missão Campus Fidei.

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