Continuar Caminhando

Existem fases da vida em que tudo parece um pouco parado. A gente está se esforçando, tentando fazer a nossa parte, mas as respostas não chegam.

Eu estou vivendo um pouco disso agora. Estudos, entrevistas, processos seletivos e, enquanto isso, a vida em casa continua. Ela precisa continuar, ainda que com alguns cortes de gastos.

Apesar de sempre tender a me desesperar, não é uma situação desesperadora. Temos uma casa, temos nossos filhos, temos Deus. Mas quem passa por momentos assim sabe que existe um peso silencioso nessas fases da vida. Não é apenas sobre dinheiro ou trabalho. É sobre o desejo verdadeiro de cuidar bem da família, de contribuir mais, de oferecer segurança — e perceber que, naquele momento, as coisas ainda não estão como gostaríamos. A sensação é que 30 anos seriam suficiente para que a vida estivesse resolvida, mas ela não está.

E nesses dias eu tenho pensado muito em como a nossa fé conversa com esses tempos de espera. Veja como a Palavra de Deus nos mostra isso:

“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te apoies em tua própria inteligência; reconhece-o em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas.” (Provérbios 3,5-6)

Às vezes, queremos enxergar o caminho inteiro. Mas Deus nos mostra apenas o próximo passo (um segredo: para pessoas ansiosas, essa não é uma das melhores frases de se ouvir kkk)

Existe um diálogo muito marcante de Senhor dos anéis: A sociedade do anel (aqui estou eu citando Tolkien novamente, eu amo). Em um momento da jornada, Frodo olha para Gandalf e diz que gostaria que tudo aquilo nunca tivesse acontecido com ele. Ele gostaria que o anel não tivesse chegado à sua vida. Gandalf, de modo profundo, responde que todos gostariam que certas coisas não acontecessem em seus tempos, mas que não cabe a nós decidir. O que podemos decidir é o que fazer com o tempo que nos foi dado.

Essa fala sempre me marcou, mas nesses dias ela tem feito ainda mais sentido. Isso porque existem fases da vida que nós não escolheríamos: fases de espera, fases de incerteza, fases em que parece que estamos caminhando muito e avançando pouco.

Mas ainda assim continuamos caminhando.

Quando olho para a vida de Jesus Cristo, também percebo algo muito consolador: antes de qualquer milagre, antes das multidões, antes da cruz e da ressurreição, houve anos de vida cotidiana e silenciosa em Nazaré, porque, às vezes, a santidade parece estar menos nos grandes acontecimentos e mais na fidelidade das pequenas coisas. Por exemplo, nos tempos de estudo, nos tempos de tentativa, nos tempos em que estamos apenas fazendo o que podemos

E uma coisa que tenho percebido é que Deus nos sustenta nesses tempos sozinhos. Muitas vezes Ele usa pessoas, relações e missões para nos lembrar que ainda estamos no caminho.

E, nesse momento da minha vida, algo que tem sido um grande sustento para mim e para minha família é a Rede de Missão. Em tempos difíceis, a comunidade deixa de ser apenas um lugar de encontros. Ela se torna um lugar de apoio, de oração e de amizade verdadeira. E a missão é um tesouro que precisa ser cultivado. E ela cresce quando escolhemos permanecer. Quando rezamos uns pelos outros. Quando continuamos caminhando juntos, mesmo nas fases mais difíceis.

Pensamos que só podemos servir quando tudo na nossa vida está organizado, quando a vida está financeiramente tranquila, emocionalmente estável, profissionalmente resolvida. Mas a verdade é que a missão também se constrói no meio da vulnerabilidade.

E é justamente nesses momentos que ela se torna mais verdadeira.

Porque, no fundo, a fé cristã não é a certeza de que tudo acontecerá exatamente como planejamos. É a certeza de que Deus continua conduzindo a nossa história. Afinal,  “sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.” (Romanos 8,28)

Eu não sei exatamente como serão os próximos meses. Não sei como algumas coisas vão se resolver, mas tenho tentado me lembrar de algo muito simples: Deus não constrói a nossa história apenas nos momentos de abundância. Ele também trabalha nos intervalos, nos tempos de espera, nos períodos em que tudo parece mais silencioso. E são nesses momentos que Ele forma algo dentro de nós: paciência, confiança, humildade, esperança.

No fundo, a fé cristã não é a certeza de que tudo dará certo exatamente como planejamos, é a certeza de que não caminhamos sozinhos. Mas, assim como na jornada de Frodo, que a pergunta mais importante a ser feita não seja quando tudo vai se resolver, mas como eu vou caminhar enquanto isso não acontece.

Luana Beatriz,

Missionária da Rede de Missão Campus Fidei.

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