QUERIGMA – o primeiro anúncio da Boa Nova de Cristo

O Papa Bento XVI em sua Encíclica “Deus Caritas Est” nos recorda que “a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: Anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria- didaché), Celebração dos Sacramentos (leiturgia), Serviço da Caridade (diakonia). Esses são deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (DCE, 25). A partir desse primeiro artigo queremos te convidar a explorar conosco o terreno dessa tríplice ação da Igreja através de uma série de formações. Os tesouros que vamos encontrar nessa aventura, tornarão nosso discipulado e nossa missão mais atraentes, mais cheios de vida, de dinamismo. Em uma palavra: mais fecundos.

Nesse primeiro momento, o nosso ponto de partida será o “Anúncio da Boa Nova de Cristo”, o Querigma. O conceito de Querigma (em grego mensagem) no horizonte do cristianismo se identifica com o de Evangelho, Boa Notícia, anúncio, mensagem de salvação. Neste sentido é que sempre dizemos que Cristo não veio configurar um sistema de pensamento, uma norma ética de vida ou uma grande ideia. Mas veio anunciar uma mensagem de salvação, proclamar o Reino de Deus. Isto fica claro quando lemos na Escritura que: “Jesus começou a pregar e a dizer: Convertei-vos e credes no Evangelho, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 4, 17), ou quando Ele dizia: “É necessário que se proclame a Boa Nova a todas as nações” (Mc 13, 10). O Querigma tornou-se também o fim essencial da missão evangelizadora confiada por Jesus a seus discípulos, quando lhes disse: “Ide e proclamai a Boa Nova a todas criatura (…) E eles saíram a pregar por toda a parte, agindo com eles o Senhor estava, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam” (Mc 16, 15)

Sobre o Querigma vale a pena a gente garimpar a origem do uso desse termo, que vem exatamente do verbo grego “KERYSSO, que por sua vez significa proclamar por um mensageiro (kéryx) um decreto autorizado pelo soberano.  A palavra grega “KÉRYX significa justamente “pregador, mensageiro”. Interessante é notarmos que na antiguidade grega o “Kéryx” era aquela pessoa que o soberano enviava para proclamar, anunciar a sua mensagem (KERYGMA). O mensageiro jamais se atrevia a mudar a mensagem, porque ela não era sua. Ele era apenas o portador, e seu dever era transmiti-la integralmente para que ela fosse ouvida e acolhida por todos naquela região. Algo semelhante aconteceu na idade média com o ofício do “Arauto”, que consistia em tornar conhecida a vontade do seu Senhor, em anunciar suas palavras, em proclamar suas sentenças. O Arauto era o oficial que fazia as publicações solenes, anunciava a guerra e proclamava a paz, ou seja, era o mensageiro (singular) do rei. A partir de toda essa riqueza de significados é que podemos dizer que é isso que um pregador, um formador, um catequista é: “um mensageiro da Boa Nova do Reino de Deus”, aquele que “anuncia Cristo aos homens, os adverte e os instrui em toda sabedoria, a fim de apresentá-los todos, perfeitos em Cristo” (Col 1, 24-29). Em síntese: o verdadeiro anúncio nada mais é que a bonita e sublime tarefa de proclamar a vontade de Deus aos homens.

Quando falamos de querigma, logo lembramos também de algo muito interessante que o Apóstolo Paulo escreve aos Romanos ao falar da fé em Cristo: “Como poderão crer sem ter ouvido? Como poderão ouvir sem quem anuncie?”  (Rm 10, 14). Literalmente: «sem alguém que proclame o querigma». E conclui: “A fé vem da [escuta da] pregação e a pregação é pela Palavra de Cristo” (Rm 10, 17), E «pregação» se entende a mesma coisa, isto é, o «evangelho» ou o querigma. Por isso, a fé é uma semente da graça que floresce somente na presença do terreno do querigma, no canteiro do anúncio. O Beato Paulo VI na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” nos deixou nesse sentido uma belíssima lição, a de que “não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados. (…) Dar a conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho àqueles que não os conhecem, é precisamente, a partir da manhã do Pentecostes, o programa fundamental que a Igreja assumiu como algo recebido do seu Fundador.” (EN, 22 e 51).

Muitos de nós, mesmo marcados pelos longos anos de seguimento a Jesus, poderíamos a essa altura ainda nos perguntar sobre qual deve ser de fato o conteúdo específico da nosso anúncio, da nossa pregação. A essa questão poderíamos seguramente dizer apenas que é o próprio Cristo, a Boa Notícia do Pai. Mas o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium nos faz dar um salto muito interessante e belíssimo, quando nos ensina que “o querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Ao designar-se como «primeiro» este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar de uma forma ou de outra. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano” (EG 164).

Por isso é que nesse sentido que em nossos Grupos, movimentos, pastorais, Grupos de Estudo, comunidades, associações, paróquias, dioceses, mais do que nunca, “se faz urgente e necessário que surja uma nova geração de apóstolos que estejam enraizados na Palavra de Cristo, em condições de dar uma resposta aos desafios do nosso tempo e preparados para anunciar o Evangelho em toda parte” (Papa Bento XVI). Uma geração de discípulos missionários, que pela força do batismo se sintam atraídos a florescer o Evangelho naquele “campo da fé”, onde o Senhor os plantou. Uma geração que não tenha medo de deixar que “Jesus Cristo venha a romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreender-nos com a sua constante criatividade divina” (EG, 12). Pois, como completa o Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “O Senhor quer servir-Se de nós como seres vivos, livres e criativos, que se deixam penetrar pela sua Palavra antes de a transmitir; a sua mensagem deve passar realmente através do pregador, e não só pela sua razão, mas tomando posse de todo o seu ser. O Espírito Santo, que inspirou a Palavra, é quem «hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele, e põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar» (EG 152).

Por fim, não poderíamos deixar de mencionar que embora o Querigma seja o eixo no qual os campos da missão, da evangelização, da catequese, da pregação e outras similares, giram em torno para fazer conhecido o nome e o Rosto de Jesus de Nazaré, em muitos lugares ainda tudo segue girando, desde o princípio até o final, em torno à primeira conversão, ao chamado novo nascimento, o primeiro amor. Isso é bom. É o ponto de partida. Mas para nós, católicos, o querigma é só o início da vida cristã. Depois disso deve vir a catequese, o ensinamento (didaché) e o progresso espiritual, a fim de que possamos eleger conscientemente a Cristo como próprio Senhor e salvador pessoal e comprometer-nos ativamente na vida de nossa Igreja.  E sobre este aspecto nos dedicaremos a partilhar na próxima formação! Até lá!

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