
Certa noite, minha filha, um pouco angustiada, me disse:
— Mãe, podemos conversar?.
Eu, cansada do longo dia, com aquela cara de “lá vem” e o olhar para cima, sabia que aquele momento era importante para ela. Respirei fundo e, com um sorriso, respondi:
— Claro.
Depois de colocar os irmãos na cama, fui até seu quarto. Me sentei ao seu lado, segurei sua mão e acenei com a cabeça, mostrando que estava pronta para ouvi-la. A primeira frase foi:
— Promete que não vai brigar comigo?.
Naquele instante, percebi que era algo mais sério do que eu imaginava. Confirmei que não brigaria, que estava ali para ajudá-la. Ela respirou fundo, já mais segura, com a voz firme e lágrimas nos olhos, disse em alto som:
— Eu preciso sair dessa escola o mais rápido possível. Porque lá eu preciso fazer o mal e
aquilo que não gosto; não consigo praticar o bem.
Agora era o meu coração que se agitava. O que será que ela precisava fazer? Com calma, perguntei o que estava acontecendo e, após seu relato, pude orientar, acalmar e acolher aquele pequeno coração agitado.
Tudo o que conversamos daria vários capítulos e camadas para escrever…era mesmo um coração aberto, se rasgando e desejando ser conduzida para o bem… Mas quero me deter a uma única parte que, assim como todo o contexto, me deixou pensativa e que volta ao meu pensamento vez ou outra: “…fazer o mal e aquilo que não gosto.”
Nós já ouvimos algo parecido, não é? Em Romanos 7,19, São Paulo nos recorda: “Com efeito, não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, isso é o que pratico.”
Quão profunda e humana é essa frase! Ela nos mostra que, mesmo com fé, travamos uma batalha entre o bem e o mal todos os dias. Fomos feitos para o Céu. Nossa alma anseia e deseja ardentemente retornar para lá. Mas somos humanos, marcados pelo pecado, e precisamos lutar contra tudo o que nos afasta de Deus. Precisamos nos unir a Cristo. Precisamos nos aproximar da Eucaristia. Precisamos lutar e ordenar nossos desejos. Porque — como continua nos ensinando São Paulo — “Querer o bem está ao meu alcance, mas realizá-lo, não”. Sozinhos, não somos nada, meus irmãos. O caminho é duro, mas, se temos com quem caminhar ao nosso lado (aqui na Terra e também no céu), ele se torna mais leve, mais bonito e mais feliz.
Naquela noite, pude ensinar algo valioso à minha filha: Muitas vezes praticamos o mal não porque queremos, mas porque caímos, não lutamos contra ele naquele instante. Esperamos o conforto, as “amizades” e estar bem, ainda que às custas do outro. Mas mesmo que custe, ainda que machuque, precisamos ordenar nossos desejos, nosso coração e, principalmente, nosso olhar para o Céu. Naquela noite (como em todos os momentos), ela sabia que poderia contar comigo, que ainda vamos cair muitas vezes, mas juntas vamos buscar agradar e ser fiel Àquele que nos chama à santidade.
Busquemos o Senhor com todas as forças, com nosso esforço e claro, com a graça constante de Deus. E peçamos ao nosso anjo da guarda que sempre nos guie e nos proteja, não só do mal que possa vir contra nós, mas também do mal que nós mesmos podemos praticar.
Texto escrito por Carol Sampaio, missionária da Rede de Missão Campus Fidei.
