
Nas nossas férias, fomos a um pomar comer acerolas, no fim da época da fruta. O pé já não estava mais tão cheio, mas dava para aproveitar aquele gostinho especial da fruta colhida na hora. Durante um bom tempo abaixei os galhos da árvore para que meu pequeno de dois anos pudesse catar suas frutinhas. Em diversos momentos, ele ia pegar as frutas verdes ou pouco maduras e eu ensinava: essas não são tão boas, colha essas outras. Após alguns minutos de colheita, já não restavam mais acerolas que ele pudesse alcançar, então eu colhia as do alto e oferecia as melhores pra ele, mas ele não aceitava. Por um longo tempo meu pequeno menino de dois anos insistia em pegar acerolas completamente verdes sozinho, enquanto eu ofertava as maiores, mais vermelhas, mais saborosas que havia colhido no alto.
De repente, aquela cena me revelou uma verdade sobre mim: eu era aquele menino de dois anos diante de Deus. Quantas vezes o Senhor me ofereceu o melhor, as acerolas mais maduras, e eu insisti em ficar com as verdes que eu era capaz de colher sozinha. Quantas vezes, sem perceber que foi Deus quem abaixou o galho para que eu colhesse, eu acreditei que eu havia conquistado as coisas por meus próprios méritos, por minhas próprias forças. Ah, quantas vezes eu fui imatura com meu Pai bondoso que sempre tem o melhor para mim.
Na primeira carta de Timóteo (I Tm 2, 15), São Paulo afirma que a mulher se salvará pela maternidade, e hoje entendo exatamente o porquê. A espiritualidade na maternidade pode ser muitas vezes contemplativa. Contemplamos Deus se revelar na imaturidade dos nossos filhos que pode ser a nossa. Contemplamos os mistérios do terço, enquanto imploramos para que a criança durma na madrugada. Os minutos são contados em ave-marias e contemplamos o Céu ao observar os pequenos dormirem.
O Céu se faz presente no meio de nós, basta abrir os olhos para contemplar. Se a “criação revela o criador”, no mistério da proCRIAÇÃO o Criador se revela nos detalhes para que quem cria revele o Filho aos filhos.
Texto escrito por Ludmila GIacone, missionária da Rede de Missão Campus Fidei.
