
Já eram duas horas da manhã.
A casa, que há 10 dias estaria perfeitamente silenciosa, agora estava invadida por um choro agudo que ecoava pela sala de estar. Cada tentativa de acalmar a pequena parecia ser mais inútil que a anterior. Balbuciava palavras suaves, balançava o berço, até embalar nos braços com cuidado, como se isso fosse resolver, mas, em vez de sono, o choro persiste implacável. Caminhava pela sala evitando passar pelo corredor para que o choro não ecoasse para o quarto, acordando a mãe.
As caminhadas passando pela porta da cozinha tendo uma vista infeliz do relógio do microondas e vendo o tempo escorrendo ferozmente. Havia uma estranha esperança que se recusava a morrer: que, em algum momento, o silêncio tomaria o lugar do barulho, e finalmente, a paz se restabeleceria. Até lá, restava apenas o vai-e-vem da tentativa e erro, numa dança exaustiva entre a fadiga e a paciência.
A fralda tinha sido trocada 40 minutos atrás e me pegava torcendo para que ela pudesse se aliviar e que esse fosse o problema. Tentava o truque do dedo na boca para simular uma amamentação acalentadora, mas ela rejeitava, indicando que o problema também não era fome. A roupa foi trocada, pensando que poderia ser algum incômodo nesse sentido. Será que agora está frio demais? Nunca a tinha enfaixado tão bem no cueiro. Ruído branco parecia fazer algum tipo de efeito juntamente com colocá-la em uma posição com as pernas dobradas, simulando a posição do útero. O choro, porém, persiste. Cólica? Tinha lido em algum lugar que não aconteceria antes dos 15 dias de vida. Cansaço? Será que perdeu a janela de sono e agora não consegue descansar? Como pode ser que alguém está cansado demais para descansar?
Sejamos justos. Eu mesmo sofro desse paradoxo com alguma frequência. Lembro de um tempo que trabalhava, estudava e corria o risco de perder a parada de ônibus por cochilar tempo demais, mas à altura que já tivesse chegado em casa, preparado para dormir, tinha perdido o sono e sabia que minha rotina do dia seguinte estaria arruinada de cansaço. Será que essa é uma herança ingrata que passei para minha filha?
Duas e vinte e três.
Eu sei que se ela mamasse alguns minutos ela teria alguma melatonina e poderia até pegar no sono. Realmente não queria acordar minha esposa. Ninguém merece tanto um pouco de sono quanto ela. Uma doação imensa durante o dia, uma preocupação constante realmente exaure a energia do corpo. Depois da última amamentação, ela apenas se deitou derrotada e dormiu. Ela merece ao menos algumas horas de sono. E mais; ela está recusando o dedo. Não é fome. Não estou privando minha filha de nutrição. Estou?
Duas e trinta e oito.
Vocalizando “Mãezinha do Céu” já há algum tempo. Será que a pequena entende que não é a mãe cantando? Eu deveria tentar cantar uma oitava acima? Meu tenor desafinado nunca vai se comparar ao doce alto da mãe. Incrivelmente, cantar com a letra parece acalmar mais do que apenas o cantarolar. Ela parece entender a seriedade do que está sendo dito. Mais do que eu, de qualquer forma.
Minha tendência a catastrofizar situações pode estar passando subliminarmente o estresse que estou sentindo pela minha própria insônia e inapetência dos últimos dias. Alguém tinha me dito algo sobre mindfulness recentemente. Talvez esteja mais focado em resolver o problema do choro e falta de sono e não estou com a plena consciência de que na verdade estou tentando afagar minha filha recém nascida. Que isso é uma forma de cuidado. Meu papel de pai. Não um problema a ser sanado o quanto antes.
Duas e quarenta e nove.
Prestando uma atenção diligente nas palavras da canção, olho em volta embalando a pequena. Vejo as fotos do casamento e a foto do querido amigo padre dando a benção das alianças me obriga a pensar nas promessas do casamento. Em especial “Estais dispostos a receber amorosamente os filhos como dom de Deus e a educá-los segundo a lei de Cristo e da sua Igreja?”. Claro! Como não? Essa criança é obviamente dom de Deus! Vou educá-la para a santidade!
Atentando que posso ter divagado na ‘plena consciência’ do ato, volto a prestar atenção na música e busco com os olhos os elementos da sala que me façam verdadeiramente focar naquilo. Todas as efígies, imagens e mementos marianos. Um porta-retrato com uma foto nossa à frente de uma reprodução da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, um livro que confesso nunca ter lido sobre a Medalha Milagrosa, fotos do casamento o qual a leitura do evangelho foi o primeiro milagre de Jesus pela intercessão da Virgem Maria nas bodas de Caná, um pequeno presépio de madeira, o ícone das bodas da Virgem Maria e São José no quadro de nossa bênção matrimonial, uma imagem representando a anunciação do anjo Gabriel a Maria em que a Santa Mãe carrega em seus braços o menino Jesus e atrás está o anjo.
Dessa vez permitindo minha mente divagar, lembro daquele antigo hino natalino que diz “Æterni Parentis splendorem æternum velatum sub carne videbimus, Deum infantem pannis involutum”. Veremos o esplendor do Pai Eterno velado sob a carne, o Deus menino envolto em panos. O Deus eterno se faz pequeno, se faz carne, nasce em pobreza em tudo igual a nós, exceto em pecado. O Filho de Deus, consubstancial ao Pai, foi abrigado em faixas e embalado nos braços de Maria Santíssima.
Pensar em duas canções ao mesmo tempo faz com que minha mente exausta encerre as duas. Pensando no presépio de Belém rezo em sussurro uma Ave Maria, reconhecendo essa oportunidade de reflexão, uma Salve Rainha pedindo um necessário socorro e um Glória ao Pai pela beleza de contemplar os Mistérios da Redenção ao tentar ninar minha pequena filha. Oferecendo as três orações pedindo a graça que Maria, Mater Misericordiæ, possa, assim como fez com o Menino Deus, embalar e cuidar da pequena, para que esses pecadores a quem Deus confiou sua custódia possam descansar e bem cuidá-la no ao raiar da luz.
Três horas.
Silêncio absoluto enquanto vou até o berço posicionado aos pés da cama. Desço vagarosamente a pequena, ajusto o cueiro que se desfez no arranjo, faço um pequeno sinal da cruz em sua testa e em mim mesmo.
Enfim, os três embalados nos braços da Mãe, dormimos.
Texto escrito por André Crema, missionário da Rede de Missão Campus Fidei.
