No corpo humano, dentre as muitas células que o compõem, existem aquelas
que formam o sistema imunológico e que têm por objetivo defendê-lo e ajudá-lo na
recuperação de lesões. Trata-se, em resumo, de um sistema que identifica os males
dentro do corpo e os ataca com as melhores ferramentas de que dispõe: as células
de defesa especializadas para cada mal – sem colocar em risco de morte o próprio
corpo, que é ao mesmo tempo campo de batalha e sustentáculo da vida de cada
uma dessas células.
Parte dessa estrutura complexa de defesa e recuperação nasce conosco e
outra parte é adquirida e melhorada ao longo da vida, com vacinas, hábitos
saudáveis e até mesmo com as próprias doenças. Para as doenças ou males em
geral em que o corpo não tenha já preparadas células especialistas, é no combate à
doença que se cria essas células e a estratégia certa para eliminar o problema.
De forma análoga, a vida espiritual de cada membro da Igreja e a própria
Igreja, corpo místico de Cristo, também são passíveis de sofrer doenças e males, e,
portanto, possuem seu próprio sistema imunológico. Esses males podem ser de
diferentes naturezas e são tanto externos quanto internos: pessoas e movimentos
que atacam com discursos e com armas, perseguições sofridas por cristãos ao
longo de toda a história humana, deturpação das santas doutrinas por pessoas de
dentro da própria Igreja, tentações, falta de uma vontade firme etc.
A parte do sistema imunológico que nasce conosco e cria barreiras para
impedir que as doenças e males apareçam é chamada de imunidade inata e sua
estratégia de combate não é a de combater um mal existente, mas impedir que o
mal comece. Estamos o tempo inteiro em contato com vírus, bactérias, fungos e
outras substâncias maléficas e não teríamos muitos dias de saúde se as barreiras
de nosso corpo – pele, pêlos, ph ácido do suco gástrico, dentre outros – não
conseguissem impedir a proliferação desses problemas.
Nesse sentido, ao observarmos a vida espiritual de cada cristão, podemos
enxergar a sua imunidade inata como o primeiro dos sacramentos: o Batismo. O
CIC nos diz, no ponto 1267, que
“O Baptismo faz de nós membros do corpo de Cristo. «Desde então
[…], somos nós membros uns dos outros.» (Ef 4, 25). O Baptismo incorpora
na Igreja. Das fontes baptismais nasce o único povo de Deus da Nova
Aliança, que ultrapassa todos os limites naturais ou humanos das nações,
das culturas, das raças e dos sexos: «Por isso é que todos nós fomos
baptizados num só Espírito, para formarmos um só corpo» (1 Cor 12, 13)”.
Pelo sacramento do Batismo, portanto, nascemos para a vida no Espírito e
somos incorporados ao corpo místico de Cristo. E por que, então, o Batismo é como
a parte inata de nosso “sistema imunológico espiritual”? Porque, no momento de
nosso novo nascimento pela água batismal, nossos pecados todos são perdoados e
nos tornamos participantes da natureza divina, templos do Espírito Santo e,
portanto, estamos imunizados, pela Graça Divina, contra muitos dos males
espirituais. Por nossa participação na vida de Cristo, Deus nos concede graças e
proteções pelos méritos de Cristo. E o primeiro passo nessa participação é o
Batismo. O CIC nós dirá no ponto 1265 que:
“O Baptismo não somente purifica de todos os pecados, como faz
também do neófito «uma nova criatura» (63), um filho adoptivo de Deus
(64), tornado «participante da natureza divina» (65), membro de Cristo (66)
e co-herdeiro com Ele (67), templo do Espírito Santo (68).”
Porém, assim como em nossa vida biológica, em que nossa imunidade inata
não é capaz de lidar com todo o tipo de doenças que possam surgir e precisamos
adquirir essas defesas de outros modos, existe um caminho a ser seguido por cada
cristão a fim de se tornarem mais fortes espiritualmente, que se inicia com o
Batismo, mas não acaba nele.
Nesse caminho de crescimento espiritual, passamos por sofrimentos e
tribulações que nos permitem aumentar nossa participação na herança de Jesus
Cristo, deixando-nos mais fortes para os futuros sofrimentos e tribulações, assim
como nosso organismo se fortalece e cria novas defesas a cada virose, infecção ou
doenças quaisquer que pegamos ao longo da vida – e isso é a imunidade adquirida.
Em adição a isso, Deus nos deixou outros seis sacramentos, que nos
auxiliam em nosso fortalecimento espiritual: Eucaristia, Confirmação, Ordem,
Matrimônio, Unção dos enfermos e Confissão. Esses sacramentos, mas não
somente eles, são como as vacinas e os remédios para nosso corpo: dão-nos força
espiritual para combater os males que surgirão em nossa vida e nos curam
daqueles que já nos afligem.
Por isso a importância de uma vida sacramental sólida. Não se tratam
apenas de meras formalidades sociais que devem ser cumpridas para “ser católico”.
Trata-se de tornar sua vida espiritual mais saudável – “saudável” tem a mesma raiz
latina da palavra “salvação”. Só há salvação para um espírito verdadeiramente
saudável.
Em nosso corpo, um sistema imunológico desordenado faz uma má
identificação de células maléficas e acaba atacando células boas, causando as
doenças autoimunes. Paralelamente, se não procurarmos viver, portanto, uma vida
espiritual ordenada e saudável, criaremos nós mesmos nossas doenças espirituais
autoimunes. Falta de uma vontade firme, autoboicote, falta de autodomínio, falta de
sinceridade consigo mesmo, vício em jogo, drogas e bebidas e a falta de oração são
uma porcentagem pequena da quantidade de caminhos que tomamos direto para
essas doenças.
Se generalizarmos essa comparação ainda um pouco mais, no caso da
Igreja, podemos enxergar cada fiel como uma célula que compõe o seu sistema
imunológico. Ou melhor, cada fiel tem o potencial de ser uma célula assim. Na
busca por aperfeiçoar seu sistema imunológico espiritual pessoal, você se torna
também uma célula mais forte do sistema imunológico da Igreja, corpo místico de
Cristo, para combater as doenças que afligem esse corpo.
Deve-se enfrentar seus males de forma estratégica, sem colocar em risco a
vida da própria Igreja. Também nela, um sistema imunológico desordenado de fiéis
acaba atacando a própria Igreja, julgando como ruim aquilo que é bom e causando
a morte de alguma parte do corpo místico de Cristo, acreditando fazer o certo, sem
se preocupar em reparar as verdadeiras imperfeições que podem surgir – vide a
quantidade de heresias criadas ao longo de nossa história.
Portanto, como católicos, há uma belíssima responsabilidade em nossos
ombros: a de nos parecermos cada vez mais com o próprio Cristo, cuidando de
nossa vida espiritual como cuidamos de nossa vida material. É essencial buscarmos
fortalecer nosso espírito na medida em que buscamos fortalecer nosso corpo, a fim
de sermos nós mesmos células saudáveis e santas do corpo místico de Jesus
Cristo e ajudá-lO em sua obra de salvação.
Texto escrito Guilherme Guimarães, Missionário da Rede de Missão Campus Fidei.
