Alegria que não derrete

Todo ano, lá pelo fim de março ou começo de abril, começa a temporada dos coelhos. Não coelhos de verdade, mas de papel, pelúcia ou chocolate — alguns sorridentes, outros com cara de sabedoria pascal, como se soubessem um segredo milenar que a gente nunca vai descobrir. Aparecem de repente, como se tivessem saído da toca direto para as prateleiras. E trazem ovos. Muitos ovos.

Olho tudo e penso na estranheza de coelhos botando ovos. Todo mundo aceita, sorri, paga caro e segue a vida aceitando essa zoologia mágica como tradição. Mas algo me inquieta mais: acabarmos esquecendo o verdadeiro motivo da festa.

Porque a Páscoa sempre foi sobre outras coisas: entrega, amor, esperança — e uma vitória surpreendente.

Deveríamos saber isso de cor. Lembrar que houve um sacrifício extremo, que Jesus Cristo foi morto, que o céu escureceu na sexta-feira, que a esperança foi sepultada. E que, no terceiro dia, o impossível aconteceu.

Mas confesso que às vezes me pergunto se nós ainda lembramos disso como deveríamos. Ou se não estamos, também nós, trocando o Cordeiro — ainda que com linguagem piedosa — pelo coelho.

Eu entendo… a vida já tem coisa demais pra pensar. Às vezes a gente só quer um feriado, uma desculpa pra comer bem e abraçar alguém. Mas penso no contraste.

De um lado, o coelho e o ovo — símbolos fofinhos que ninguém questiona, porque não exigem fé, só um cartão de crédito. De outro, o madeiro da cruz e um túmulo vazio, que exigem da gente uma reflexão que a modernidade não gosta de cultivar. Afinal, é muito mais fácil preparar uma mesa bonita com ovos de chocolate do que encarar a cruz. 

É mais leve organizar uma caça aos ovos no quintal do que ensinar nossas crianças sobre o amor de Deus, que nos deu vida nova e venceu até a morte, bem como ensinar a profundidade da ressurreição.

E veja, não sou contra celebrar com comida boa. É lindo reunir a família, ver crianças correndo atrás de ovos escondidos, avós sorrindo com 3 ovos de chocolate para cada neto no colo. Chega a ser sagrado — se houver amor. Jesus também festejava, gostava tanto das celebrações que seu primeiro milagre foi em uma festa de casamento (João 2, 1-11). Mas Ele também gosta de memória agradecida. Às vezes, com tanto chocolate, a gente quase esquece que a alegria da Páscoa é bem mais doce do que qualquer sobremesa — não estraga e nem derrete.

A verdade é que podemos acabar celebrando a casca, não o conteúdo: mais preocupados com a embalagem do que com o que tem dentro — dentro de nós mesmos. E aqui não pretendo acusar ninguém, mas lembrar. Lembrar a mim mesmo, antes de tudo.

A alegria da Páscoa não cabe num fim de semana prolongado — motivo pelo qual comemoramos durante oito dias, as oitavas da Páscoa. E Jesus venceu a morte não para nos dar um dia de festa, mas a eternidade com Ele.

Então, no período Pascal — alegremo-nos e nele exultemos! — antes das refeições, antes dos chocolates, antes das fotos, vale a pena parar um instante. Respirar fundo. Olhar para o céu, depois fechar os olhos, agradecer e rezar.

Lembre de como o Papa Francisco inicia a Christus Vivit¹: Cristo é a nossa esperança. Tudo o que ele toca torna-se novo, enche-se de vida — Ele vive e quer-te vivo!

Lembre da cruz, mas também da ressurreição. E lembre que, por mais simpáticos que sejam os coelhos, foi o Cordeiro de Deus que morreu e ressuscitou por você. É por isso que, com um sorriso nos lábios e olhos fixos no Senhor, podemos colocar as mãos à obra e dizer com toda a alegria: Cristo Ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

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