Às vezes, nos é necessária uma dupla poda. 

O que te vem à mente quando você pensa no tempo de Brasília? Temos certeza que a maioria das pessoas que não moram em BSB se lembram do calor escaldante que tem por aqui. De fato, temos 6 meses de um calor digno do nosso país tropical que se soma a chuvas não tão escassas. Os seis meses restantes são de extrema secura que praticamente só os calangos brasilienses sobrevivem e que fazem os turistas sofrerem tanto.

O que as pessoas não sabem é que, em meio a essa seca, existem meses bem frios. E o mais curioso é que em meio a essa seca extrema, os arredores da cidade têm imensas produções de grãos e, mais recentemente, de uvas produzidas no inverno. E isso só é possível devido a pesquisas, alta tecnologia, muita dedicação e uma pitada de sacrifício.

Pesquisadores perceberam duas coisas: primeiro, que precisariam aprimorar o terreno e, depois, que seria necessário inverter o momento da produção. De um modo geral, as uvas são produzidas no verão, quando há temperaturas amenas e poucas chuvas nos países de zona temperada. Mas no Distrito Federal há vinhos finos já premiados nacional e internacionalmente, produzidos a partir de uvas de inverno – isso porque aqui o clima segue a lógica inversa: no inverno não chove e a temperatura é boa para a uva, ao contrário do verão. 

Preparar o terreno, porém, exige um excelente agricultor e um certo “sacrifício” por parte do próprio terreno. Não basta apenas jogar os nutrientes que faltam lá, mas é preciso “machucar” o terreno. Com o metal das máquinas, fazem-se sulcos fundos na terra e a remexem quantas vezes forem necessárias para que ela se torne um campo fértil. Feito isso, o que canta o salmista no Salmo 64 pode se cumprir no DF: 

“É assim que preparais a nossa terra: vós a regais e aplainais,/ os seus sulcos com a chuva amoleceis e abençoais as sementeiras. O ano todo coroais com vossos dons, os vossos passos são fecundos;/ transborda a fartura onde passais, brotam pastos no deserto. As colinas se enfeitam de alegria, e os campos, de rebanhos;/ nossos vales se revestem de trigais: tudo canta de alegria!” 

Para inverter o momento da produção, é necessário um processo duro, porque são feitas duas podas: uma no verão, antes que brotem uvas que serão ruins por conta do clima , e uma segunda pouco antes do inverno, para que as uvas sejam boas e belas, capazes de se tornarem premiados vinhos. 

Nós escutamos essa história das uvas no dia 16 de julho de 2025, primeiro dia da colheita de uvas no DF e exatos dois anos depois do nosso casamento. Nesse mesmo dia, em 2023, dia que também celebramos Nossa Senhora do Carmo, escutávamos o padre que assistia nosso casamento fazer uma belíssima reflexão sobre a parábola do semeador, evangelho que a Igreja nos presenteou naquele domingo. Ele comentava que Deus preparava a nossa terra, colocava aqueles aditivos para transformar nosso deserto em terra de vida. Para isso, precisaríamos abrir nosso coração para que Ele criasse aquilo que não temos. Talvez, só tenhamos compreendido aquela homilia dois anos depois, quando vimos com nossos olhos, parreiras cheias de uvas em pleno inverno, e experimentamos deliciosos vinhos advindos desse deserto que frutificou. Ou talvez, quis a providência que só depois de viver dois anos casados, pudéssemos olhar para as parreiras que frutificam e ver como Deus tem feito isso em nossas vidas. 

Bem ou mal, o maior trabalho não é da terra. Quem faz o trabalho duro é o agricultor, profissional que a forja e cuida dela diariamente para que as sementes se tornem belas plantas que vão gerar 30, 70 ou 100 frutos. Se não houvesse esse árduo trabalho, seriam como aquelas sementes do Evangelho que caíram em um terreno pedregoso e não tinham raízes. Logo morreriam. À terra basta acolher os nutrientes que lhe são depositados e aguentar as dores necessárias para ver a obra de seu agricultor acontecer. 

Assim somos nós, dizia-nos o padre: precisamos acolher a palavra de Deus na nossa vida e ter a disposição para que seja trabalhada a nossa terra a ponto de vermos as graças que podem surgir a partir de nós. Deus é esse experiente e habilidoso agricultor que quer preparar o terreno de nosso coração. Nossas dores e sofrimentos e os percalços que nos afligem, são os sulcos e os cortes que poderão se encher de frutos no futuro, com as chuvas de Graças derramadas por Deus, pois é do sofrimento do deserto que Deus tira os melhores frutos. É de uma dupla poda, de um duplo corte, de uma dor sentida duas vezes, que Ele faz sair uma uva tão bela de um lugar que não se esperava nada. Para que houvesse um tão feliz Sábado de Aleluia, foi necessária uma tão dolorosa Sexta Feira Santa.

Essa analogia nos faz lembrar do discurso da Vigília da JMJ de 2013, onde Papa Francisco nos exorta justamente à deixarmos o Belo Agricultor cuidar de nosso terreno: “Por favor, deixem que Cristo e a sua Palavra entrem na vida de vocês, deixem entrar a semente da Palavra de Deus, deixem que germine, deixem que cresça. Deus faz tudo, mas vocês têm que permitir que Ele trabalhe neste crescimento! Jesus nos diz que as sementes, que caíram à beira do caminho, em meio às pedras e em meio aos espinhos não deram fruto. Creio que podemos, com honestidade, perguntar-nos: Que tipo de terreno somos, que tipo de terreno queremos ser?” 

Esses dois primeiros anos do nosso matrimônio foram os dois anos mais felizes e mais dolorosos das nossas vidas. Nunca nos vimos diante de tantas fraquezas nossas, nunca precisamos dizer “não” tantas vezes a nós mesmos e nunca tivemos tão pouco controle das nossas vidas. Em tantos meses, foi-nos necessária a resiliência e confiança de que nem sempre aquilo que queremos acontece no tempo que esperamos. A principal dessas dores é a espera de um filho. Há mais de um ano que tentamos, mas o terreno de nossos corações ainda não está pronto. Deus ainda não terminou a obra que precisa fazer em nós para que essa graça venha. 

Apesar de ainda nos faltar o fruto biológico, um procedimento cirúrgico uma semana depois dessa colheita de 2025 nos mostrou que é tempo de crescer! Se ainda não em número ou integrantes na família, ao menos na abertura de coração a Deus. 

Ao mesmo tempo, nunca fomos tão surpreendidos por Deus, ao ver o nosso crescimento em maturidade, confiança e em tantas virtudes; ao nos sentirmos diariamente mais amados um pelo outro, ao ver a rede de apoio, de amigos e familiares que estão conosco. Afinal, agora conseguimos organizar melhor o nosso tempo, olhar para as necessidades do outro com mais carinho, e enxergar as tantas ajudas e orações que nos são dadas por aqueles que convivem conosco. 

Das uvas geradas no deserto do DF, ainda há um belo elemento que podemos observar na foto acima: há uma rede que as sustenta e protege. É por conta dessa rede que mosquitos e outros bichos não estragam a colheita, permitindo que o agricultor recolha frutos tão bons que se tornarão premiados vinhos. Graças ao bom Deus, todos nós temos também uma rede para nos ajudar em nosso caminho.

Para nós dois, além dos nossos familiares e outros amigos, a Rede de Missão Campus Fidei, o carisma que Deus nos chama a viver dentro da Igreja, é uma grande rede que nos sustenta. É no Campus Fidei que caminhamos com as pessoas que nos apoiam, rezam por nós, alegram-se e sofrem com as nossas dores. É por meio desse campo que Deus nos mostra que a Igreja é a mãe que nos protege e nos impede de sermos derrotados pelas pragas que querem nos destruir. É um campo da fé, trabalhado “na carne” por Deus, uma Rede que, numa fraternidade mística, permite que nossos poucos frutos se conservem belos e prontos para a colheita. O mais belo é ver que cada um de nós, filhos desta Igreja que nos abraça, é chamado a viver apoiado por uma rede que nos ajudará a viver os sacrifícios, dores e crescimentos, para um dia frutificar. Afinal, às vezes é necessária uma dupla poda para tornar o coração sensível ao que Deus quer construir nas nossas vidas.

Texto escrito por Maria Augusta e Guilherme Guimarães, missionários da Rede de Missão Campus Fidei.

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