Demolir muros, construir vida fraterna

Os olhos brilhavam de um jeito que só se vê quando a graça chega depois de longa espera. Havia sorrisos contidos e outros escancarados, abraços apertados e demorados, gente que tentava dizer algo, mas apenas ria e chorava — a resposta que, por tanto tempo, foi silêncio, agora batia suave, do lado de dentro.

Com as mãos sobre o ventre, foi anunciada mais uma vida entre nós. Aquela vida, tão pequena e ainda invisível, já habita nossas orações. Na verdade, já habitava antes mesmo da concepção. E sabemos de onde ela vem: da fidelidade de um Deus que escuta.

Nosso fundador, o Jerônimo, nos diz que “a vida fraterna traz beleza e leveza para a missão”. A vida fraterna, também chamada de Partilhar, é um dos quatro princípios da Rede de Missão Campus Fidei.

Precisamos lembrar os nossos 4 princípios – vida interior, intelectual, missionária e fraterna – como quem recita algo gravado no coração. São bússolas que apontam para a santidade, nosso verdadeiro norte. E como está em um de nossos documentos, são “os alicerces em que a norma (e o amor) encontram sua sustentação”.

Mas o nosso fundador também nos lembra que a vida fraterna tem outra face: “é dar a vida ao outro, se entregar àquele que não se entregaria por você; porque, no fim das contas, é entre você e Deus”. Ora, o amor fraterno está no centro do Evangelho, em um desejo profundo do coração de Cristo: “Nisto saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35).

E a medida desse amor não é a reciprocidade. Não podemos nos limitar a dar ao outro somente a justa medida do que recebemos. Somos chamados a amar com o amor de Cristo, que “deu a vida por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5, 8).

É por isso que viver fraternalmente é como se sentar na varanda de uma casa grande, onde cada um chega do seu jeito, com sapatos novos ou gastos, dores escondidas e alegrias ruidosas. E ali ninguém precisa se explicar muito. Basta chegar. Quem já chegou, acolhe. Quem chega, se senta. E o coração vai se abrindo.

Essa partilha não se resume a jogos e risadas nos intervalos das formações. É mais como o tutu de feijão bem temperado: simples, mas feito com amor. É escutar sem julgar, oferecer o que se tem — às vezes um pouco de tempo, um conselho, uma oração, outras vezes, oferecer a si mesmo, o dom de si.

É a Koinonia, palavra grega que, mesmo que você nunca tenha ouvido, já sentiu: comunhão. Uma associação fraterna que nasce nos corações de quem deseja ver uma boa obra crescer e alcançar outras almas.

Mas devemos estar atentos, a vida fraterna não é um isolamento em “panelinhas”. O Papa Francisco faz um forte alerta contra “a tentação de fazer uma cultura dos muros”, de erguer muros no coração, que nos impedem tocar na história do outro, nas belezas e misérias — que todos temos. Diz ainda que “quem constrói um muro, acabará escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes”.

Só é capaz de se alegrar com a gestação de outro casal ou se entristecer com o luto alheio quem derruba esses muros. É por isso que, na Missão, partilhar é um princípio — como farol na noite escura. Não é só dividir o que se tem, mas multiplicar quem se é.

Por isso a vida fraterna se constrói nos pequenos gestos: aquele que empresta o ombro, que lava a louça do outro, que corre ou anda de bicicleta e depois lancha junto, que joga Catan – e perde, com humildade, para o autor deste pequeno texto. E também se constrói com quem reza pelo amigo oração, com quem chora diante do Sacrário, quem se alegra em ação de graças.

Fiquemos com a exortação de São Paulo: “Estais firmes num só espírito, lutando juntos com uma só alma (…). Levai à plenitude minha alegria, pondo-vos em acordo no mesmo sentimento, no mesmo amor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição ou vanglória, mas com humildade, julgando cada um aos outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um só do que é seu, mas também do que é do outros. Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 1,27; 2,1-5).

Tenho para mim que, se Deus viesse à Terra em total silêncio, sem anjos nem manjedoura, talvez viesse como um irmão mais velho numa rede de missão – desses que sabem ouvir, rir de si mesmos e amar com generosidade.

E, no fim das contas, enquanto a luz alaranjada cai sobre o céu de Brasília e os passarinhos conversam na janela, entendemos que viver fraternalmente é uma antecipação do Céu. É experimentar aqui — neste chão duro e sagrado — a ternura de um Reino onde ninguém caminha sozinho, porque o Amor já fez morada entre nós.

E talvez, quem sabe, esse seja o milagre mais bonito: que a santidade se construa assim, em comunidade, com cheiro de café, afeto e a leveza de quem já entendeu que viver como irmãos é o mais bonito — e divino — testemunho.

Texto escrito por Pedro Pagano, missionário da Rede de Missão Campus Fidei.

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