Santo Antônio de Pádua, o doutor evangélico, era um homem simples

Santo Antônio de Pádua é um dos mais populares e amados santos. Talvez seja uma surpresa para alguns que o encontrador de coisas perdidas é também doutor da Igreja, e até lhe foi dado o título de Doutor Evangélico, como proclamado pelo Papa Pio XII em 1946. Os devotos latino-americanos desse santo, que o chamam de Santo Antônio de Lisboa por conta de sua terra natal, no início, resistiram ao título de doutor, pensando que iria desconectá-lo do homem comum. 

Santo Antônio – que nasceu em 15 de agosto de 1195 e morreu em 13 de junho de 1231 – foi um homem intelectual de nascimento burocrático, mas ele preferiu a humildade à aparência da erudição e preferiu o povo comum aos privilégios da universidade. Tendo estudado como um Agostiniano na Espanha e, então, alterando a sua vida para um Franciscano na Itália, vários de seus amigos franciscanos pensaram que lavar as louças era sua grande habilidade. Apenas quando Santo Antônio foi convidado para pregar em uma reunião especial que seus dons foram descobertos. Ele foi enviado para lecionar na Universidade de Bolonha, onde recebeu muitos elogios, mas optou por permanecer na academia apenas por um tempo. Ele também foi encarregado por São Francisco da formação dos franciscanos.

A reputação de Santo Antônio de ser um “encontrador” de objetos, na verdade, veio dessa época, quando ele rezou para encontrar o seu livro de anotações de salmos que tinha sido levado por um novato rebelde deixando a formação. Não apenas o livro retornou, como também o novato para a Ordem Franciscana.

A pregação de Santo Antônio

Santo Antônio elaborou sua pregação para que fosse tão acessível aos eruditos quanto aos incultos. Lemos sobre ele em Vidas dos Santos de Butler:

“Os eruditos admiravam a grandeza de seus pensamentos e as fortes imagens com que pintava os mistérios mais sublimes, e acrescentavam uma dignidade indizível às verdades mais óbvias e comuns da religião e da moralidade; no entanto, uma simplicidade natural tornou todos os seus discursos não menos inteligíveis e fáceis para os entendimentos mais vulgares.”

Santo Antônio viajava para pregar e milhares de pessoas se reuniam para ouvi-lo. Sua pregação era tão popular que, diversas vezes, ele só conseguia pregar ao ar livre. 

Uma coleção de sermões de Santo Antônio está preservada até hoje. Embora não possamos ouvir a inflexão da voz ou o uso da emoção com que ele comovia os corações dos penitentes, podemos vislumbrar alguns destaques de seu pensamento. Ele era um estudioso da Bíblia. Seu ensino era centrado nas Escrituras e especialmente nos evangelhos. Por isso, ele é chamado de Doutor Evangélico. Ele é citado dizendo: “A teologia é a ciência da Sagrada Escritura”. Séculos depois, ensinaria o Concílio Vaticano II: “o estudo da página sagrada é como a alma da teologia sagrada” (Dei Verbum, n. 24). O Catecismo da Igreja Católica (n. 117) também reafirma os sentidos espirituais da Escritura – moral, analógico (falando de Cristo) e anagógico (falando do céu). Santo Antônio, seguindo os Padres da Igreja, que havia estudado profundamente, imergiu sua pregação naquelas formas místicas e simbólicas de interpretar as Escrituras. Ele viu em toda a Bíblia uma “concordância” de eventos, como ele a denominou, que comunica uma mensagem unificada e culmina em Cristo.

Um abraço infantil

Santo Antônio traz à tona o sentido alegórico da profecia de Isaías, “porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado” (Is 9,5). Ele nos explica com ternura como Cristo é. Santo Antônio pregou:

“Esse Deus se fez uma criança por nós, é nascido por nós hoje. Existem várias razões para Cristo ser chamado de pequena criança, mas, para ser breve, aqui há apenas uma: se você machucar ou bater em uma criança, ela irá chorar; mas se você mostrar a ela uma flor, rosa ou algo assim, e depois entregar a ela – então, ela não lembrará mais do machucado – ela vai colocar de lado a sua indignação e correr para te abraçar. Da mesma forma, se você ofende a Cristo com um pecado mortal, ou direciona a Ele qualquer injúria, mas O oferece a flor da contrição ou a rosa das lágrimas da confissão (lágrimas são como o sangue da alma), então, Ele não vai se lembrar das ofensas, Ele vai tirar a sua culpa e correr para abraçá-lo e beijá-lo.” 

Da mesma forma, Santo Antônio demonstra que o sentido moral da passagem em que o pequeno Jesus foi envolto em faixas e colocado em uma manjedoura.

“Ó pobreza! Ó humildade! O Senhor de tudo está envolto em um pedaço de pano! O Rei dos anjos se deita em um estábulo! Rubor, avareza insaciável! Tenha vergonha, orgulho humano!” (Natividade do Senhor, 7).

Conquistando pelo amor

Santo Antônio é conhecido por ter incitado muitos ao arrependimento. Ele entendeu as situações em que entrava para formar e não abraçava os conflitos diretos com os pecadores. Ao contrário, ele puxou as cordas do coração e espetou a consciência como se fosse pela porta dos fundos. Acima de tudo, ele foi capaz de verdadeiramente ser testemunho, porque ele praticava o que dizia. Ele, o humilde lavador de pratos que se tornou pregador, possuía a humildade que exortava seus ouvintes. Nós lemos em “A vida dos Santos”, de Butler:

“Às suas outras vantagens, ele acrescentou a ação e o sotaque mais graciosos, pelos quais ele sabia como entrar nas próprias almas de seus ouvintes, apreendendo seus sentidos, tendo aprendido que o homem tem tanto de uma criatura sensível quanto racional…. A caridade e a prudência eliminaram a aspereza de suas repreensões, e suas próprias repreensões não eram amargas ou austeras, mas amáveis ​​e insinuantes. Enquanto ele derrotava os pecadores presunçosos pelos terrores dos julgamentos divinos, ele ao mesmo tempo cuidava de levantar e encorajar suas almas afundadas pela confiança na bondade e misericórdia divinas. Ele se opôs aos vícios da moda e às crescentes heresias daqueles tempos com igual vigor e sucesso. Os hereges mais obstinados e os pecadores mais endurecidos lançaram-se a seus pés, declarando-se vencidos”.

Ele foi chamado “Martelo dos hereges” devido à sua efetividade em trazer a conversão aos hereges. Santo Antônio, da mesma forma, opôs-se aos vícios populares do dia. Uma vez, quando os hereges não queriam escutá-lo, diz-se que os peixes subiram à superfície para escutá-lo pregar. O papa Gregório IX apreciava a fidelidade de Santo Antônio à Igreja e seu dom de pregar, e o fez seu pregador oficial. Lá, a pregação de Santo Antônio ficou conhecida como “a caixa de jóias da bíblia”. O próprio Papa Gregório chamava Santo Antônio de “arca do testamento”.

Teologia de Santo Antônio

Santo Antônio nunca escreveu um trabalho sistemático de teologia, mas ele escreveu sermões, expondo a bíblia em seu sentido espiritual, sendo eles um trabalho de teologia bíblica. Em seu livro, Santo Antônio de Pádua: Doutor da Igreja Universal, o Padre Raphael M. Huber, O.F.M. escreve:

Ele expôs o Sagrado Texto de uma maneira profundamente teológica e claramente mística que esses sermões se tornaram, de uma certa forma, um texto de dogmática e moral teológica; ao menos, nós encontramos neles a medula e quintessência de todo tratado teológico.

O precursor do dogma mariano

Santo Antônio, no século XIII, estava à frente de seu tempo ao articular inúmeras doutrinas teológicas ortodoxas. De acordo com Huber, em um momento que a Imaculada Conceição não era universalmente entendida, Santo Antônio ensinou que a Virgem Maria era “um trono de Deus feito de puro marfim” e que ela era “sem a concupiscência e um lírio branco em sua inocência”. Ele acreditou que ela teria sido preservada do pecado original para que pudesse gerar o Filho de Deus.

Santo Antônio também viu as implicações disso na sua Assunção ao céu. Apesar de a Assunção não ser celebrada em todos os lugares, Santo Antônio celebrou a Assunção em 15 de agosto e pregou sobre isso. Ele argumentou pela concordância com a Assunção de Maria de acordo com a Escritura, e desenhou paralelos de várias passagens do Velho Testamento para fazer essa argumentação. Desenhando a tipologia de Ester e Maria, ele escreve:

“A nossa gloriosa Ester é hoje conduzida pelas mãos dos anjos à ‘câmara do rei Assuero’, ‘a câmara nupcial celestial na qual o Rei dos reis, bênção dos anjos, está sentado em um trono estrelado’, Jesus Cristo , que amou esta gloriosa Virgem ‘acima de todas as mulheres’, aquela da qual se encarnou, que encontrou graça e misericórdia diante dele acima de todas as mulheres. Ó imensurável dignidade de Maria! … verdadeiramente, mais excelente ainda foi a graça da bem-aventurada Maria, que gerou um Filho a Deus Pai; e, portanto, ela foi considerada digna de ser coroada hoje no céu” (Sermão sobre a Assunção).

Um defensor do Papado

Santo Antônio também pregou pela supremacia do papado em um momento em que os papas competiam com os imperadores. Ele ensinou que Pedro “foi colocado na cabeça dos apóstolos e na cabeça da Igreja” e que, “para ele que fez uma profecia da divindade de Cristo antes de todos os outros, também foi dada, antes de todos os apóstolos, a prerrogativa das chaves”. Ele também pontuou a infalibilidade papal. Em sua bibliografia de Santo Antônio, Huber cita-o, que escreveu:

“Sim, Pedro era um mero homem, uma pessoa ignorante e iletrada, mas, sentado na sua catena, era o mais sábio”.

Santo Antônio reconheceu que a Pedro foi dado um dom singular por Deus para interpretar a verdadeira fé. 

Santo Antônio, o doutor evangélico, mergulhou no estudo orante da Escritura à luz dos Padres da Igreja. Seu principal interesse era despertar os corações para o amor de Deus e sua principal ferramenta era o testemunho de sua vida, que sustentava a habilidade única de seu ensino e pregação.

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Autor: Michael Ruszala

Fonte: Ascension Press

Traduzido por Maria Augusta Viegas – Membro da Rede de Missão Campus Fidei, servindo no Núcleo de Tradução

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